Tornar-se mãe é um evento marcado por transformações físicas e psíquicas tão intensas que às vezes nem ela mesma consegue discernir e identificar a carga emocional destas mudanças. Esse processo de transformação foi recentemente denominado na literatura especializada como sendo o período de “matrescência”. A psiquiatra Alexandra Sack descreve que não é por acaso que esta palavra se parece tanto com a palavra adolescência. Nos dois períodos acontecem mudanças dramáticas no corpo, nos hormônios, nos sentimentos, na maneira de agir e pensar em relação ao mundo. No entanto, muitas pessoas ainda não têm ciência de que toda esta transformação corporal e psíquica não acontece só com os adolescentes, mas também quando nos tornamos mães.
Laura Gutman, terapeuta especialista em maternidade relata de forma precisa em seu livro: “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, o sentimento que algumas mães têm de perda de identidade, de como pode ser desalentador para uma mãe o fato de se sentirem assustadas e acreditar que nunca mais voltarão a ser a mulher maravilhosa, ativa, encantadora, inteligente e elegante que se tornaram com muita dedicação.
A imagem de mulher maravilha é em contrapartida perniciosa. Apesar desta personagem ter sido criada por um psicólogo na década de 40 com objetivo de incentivar as mulheres a fazerem o que elas quisessem, a terem forças suficiente para ocuparem os mesmos cargos que os homens, existe aí uma cobrança embutida para que as mulheres consigam ser boas em tudo: com os filhos, com o marido, no trabalho, na casa e com elas mesmas. E na verdade, deveríamos fazer ressalvas, pois nem tudo é essa maravilha.
No livro acima mencionado são relatadas algumas destas ponderações que podemos fazer em relação à maternidade. Muitas mães percebem rapidamente que não podem dar conta de tudo. Muitas se sentem sem chão, e sem direção devido a esta perda de identidade, este fato pode ser ainda mais frustrante quando elas perdem também suas referências e suas redes de apoio, como é o caso de muitas mães imigrantes.
A autora deste livro relata bem o que acontece com muitas mães: “Quando planejamos uma mudança para outro país, presumimos um período de adaptação, o aprendizado de outro idioma, a aceitação de novos códigos de convivência, a ausência de amigos e um mundo novo a descobrir. A chegada de um primeiro filho produz nas mulheres uma perda de identidade semelhante, embora parir não seja exatamente como mudar de país, é mudar para outro planeta!” Claro que isso é um exagero, mas nem tanto assim.
Fato que nos faz questionar o quão fragilizadas as mães imigrantes podem ficar se não tiverem um apoio. Essa “mudança de planeta” não acontece somente com as mulheres. Os homens também podem se sentir afetados com toda esta mudança em suas vidas, inclusive tanto as mulheres quanto os homens podem sofrer com a depressão perinatal. A palavra “perinatal” refere-se ao tempo antes e depois do nascimento de uma criança. A depressão perinatal inclui a depressão que começa durante a gravidez (chamada de depressão pré-natal) e a depressão que começa depois que o bebê nasce (chamada de depressão pós-parto), incluindo um período de até 12 meses.
As mães e os pais com depressão perinatal experimentam sentimentos de extrema tristeza, melancolia e fadiga que podem dificultar o desempenho das tarefas diárias, incluindo cuidar de si mesmos ou de outras pessoas. Durante a gravidez, ela atinge 11% das mulheres e 13% no primeiro trimestre pós-parto, ou seja, não existe diferença significativa entre a prevalência ou incidência da depressão entre as mulheres durante a gravidez e no pós parto. No entanto, a identificação e o tratamento da depressão é menor durante a gravidez, o que dá uma falsa impressão de menor prevalência.
No caso do homem, recentemente se reconheceu que cerca de 1 em cada 20 tem depressão durante a gravidez (pré-natal) e até 1 em cada 10 dos novos pais luta contra a depressão após o nascimento de seu bebê (pós-natal). Além disso, outro sinal alarmante é a ansiedade pré-natal, alguns especialistas informam que 25% a 35% dos casos de ansiedade pós-parto começam durante a gravidez. Esses dados colocam em evidência a importância de um cuidado perinatal – antes e depois da gravidez, de qualquer mãe e pai.
Existem hoje vários grupos de apoio na internet, tais como: NaSeres que é uma grande ajuda para os brasileiros espalhados no mundo dedicado às mães e aos pais (de primeira viagem ou não) que querem ter uma preparação emocional para o acolhimento de seus filhos.
Independente de uma queixa direta de depressão ou ansiedade perinatal, toda gravidez merece uma atenção especial, sejam as mães primigestas ou já com filhos, porque ao final, cada gravidez é única.
A gravidez é um período de sensibilidade extrema, mesmo nas melhores circunstâncias, porque a questão da maternidade pode suscitar muitas angústias e medos. No final, um cuidado de si e de sua família é mais que necessário, principalmente quando estamos longe de nossa rede de apoio e de nossas referências.
Por fim, o que precisamos é nos abrir com pessoas reais e com problemas reais tanto para desmitificar o que é ser uma mãe ou um pai, quanto para sermos pessoas mais tranquilas com nossos filhos e com os outros ao nosso redor.