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A importância do ambiente para o desenvolvimento da fala

Para aprendermos a falar precisamos que uma outra pessoa fale conosco, isso é fato. E esta fala é melódica e natural quando falamos com os bebês. Mas além desta fala particular e de uma incitação ao diálogo, o bebê precisaria ouvir um discurso rico e elaborado, com frases complexas a fim de estimular seu cérebro e quanto mais cedo, nos primeiros meses de vida, o estimularmos com informações diferentes e ricas em conteúdo favorecemos o desenvolvimento não só da fala, mas também o potencial cognitivo e emocional do bebê trazendo consequências nos anos subsequentes de seu desenvolvimento.

O estudo “The early catastrophe” da revista “American Society of Psychology » de 2010 que acompanhou crianças desde os 7 meses até os 3 anos mostrou a diferença de interações entre pais e bebê em diferentes contextos socioeconômicos, desde os mais ricos até os mais pobres. Os pesquisadores constataram que de 86 à 98% das palavras utilizadas pelas crianças de 3 anos provinham diretamente do vocabulário dos pais. Além disso, a extensão e o estilo das conversas eram também semelhantes aos dos pais.

As famílias mais pobres tinham tendência a se expressar por frases curtas do tipo: “para” ou “desce”, em contrapartida, as famílias mais favorecidas tinham uma tendência a formular frases mais elaboradas e eram capazes de manter uma conversa com uma grande variedade de assuntos. Os pesquisadores mostraram que as crianças oriundas de famílias menos favorecidas, estavam “subnutridas” em relação à aquisição das palavras e do conhecimento.

No final da década de 1980 em Bucareste o “caso dos órfãos da Romênia” ficou conhecido pela negligência e maus cuidados com milhares de crianças abandonadas em instituições governamentais desde os primeiros anos de vida. Os bebês ficavam sozinhos nos berços sem nenhum cuidado, às vezes sem ver a luz do dia e sem ter contato com os adultos. Estavam praticamente sozinhos o dia inteiro, tendo somente a visita de uma cuidadora para lhes dar alimentos e cuidados higiênicos, mas ela não tinha interação com essas crianças. Elas estavam praticamente privadas de contatos relacionais com um adulto e de estímulos ambientais. Estas crianças, ainda que alimentadas diariamente de um ponto de vista orgânico, sofriam de uma “fome psíquica”.

Os três primeiros anos são cruciais para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança e se ela não for “abastecida” com amor, trocas e conversas o suficiente nesta época, será prejudicada posteriormente em sua vida. Não quer dizer que ela não conseguirá mudar sua base, mas demandará muitos esforços para enriquecer o que foi parcamente construído.

O processo contínuo e dinâmico de criação, aprimoramento e eliminação de conexões sinápticas em função das experiências se chama “plasticidade cerebral”. Esta plasticidade diminui progressivamente quando a criança atinge a idade de 5 anos, mas pode ser desenvolvida ao longo da vida se tomarmos consciência desta necessidade.

Ser pais não é algo simples, mas um cuidado atencioso e consciente acabam sendo transformadores, tanto para a pessoa que pratica quanto para o outro que recebe. Ao final, uma fala ‘alimentada’ de cuidado e atenção proporciona ao bebê (que já é uma pessoa) o florescer nas melhores condições e esse cuidado não é proveniente dos que têm dinheiro e sim dos que têm sabedoria de vida.